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Braço direito de Zelensky renuncia após ser alvo de operação anticorrupção

Andriy Yermak, um dos assessores mais próximos do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, renunciou ao cargo de chefe de gabinete da Presidência, nesta sexta-feira (28), poucas horas depois de agências anticorrupção do país terem realizado buscas em sua residência.

Yermak era frequentemente considerado o segundo homem mais poderoso da Ucrânia. Ele liderava a delegação ucraniana nas recentes negociações com Washington, em Genebra.

A renúncia dele, anunciada por Zelensky nesta sexta-feira, complica a posição de Kiev nas negociações de paz cruciais com os Estados Unidos.

“Não quero que ninguém tenha dúvidas sobre a Ucrânia hoje. Portanto, hoje temos as seguintes decisões internas. Primeiro, haverá uma reformulação do Gabinete da Presidência da Ucrânia. O chefe do gabinete, Andriy Yermak, apresentou sua carta de renúncia”, declarou Zelensky em seu pronunciamento diário na TV.

Yermak não emitiu um comunicado público de imediato. Ele havia confirmado nesta sexta-feira que a operação estava em andamento, afirmando no Telegram que estava “cooperando plenamente” com as autoridades.

“Os investigadores não estão encontrando nenhum obstáculo. Eles tiveram acesso irrestrito ao apartamento e meus advogados estão no local, interagindo com os policiais”, relatou ele.

As duas principais agências anticorrupção da Ucrânia, o NABU (Gabinete Nacional Anticorrupção da Ucrânia) e a SAPO (Procuradoria Especializada Anticorrupção), estiveram envolvidas nas buscas, segundo um comunicado divulgado pelas agências nesta sexta-feira (28).

O comunicado não revelou o motivo das buscas, mas elas ocorrem apenas duas semanas depois de as duas agências anunciarem uma ampla investigação sobre um suposto esquema de propinas relacionado à infraestrutura energética crítica da Ucrânia.

O escândalo já derrubou dois ministros de Zelensky e envolveu um antigo sócio, dos tempos em que ele trabalhava na indústria do entretenimento.

Mas o último desenvolvimento é particularmente constrangedor para o presidente, dada a recente ascensão de Yermak ao topo da equipe de negociação da Ucrânia.

As negociações com os Estados Unidos têm sido difíceis. Na semana passada, o governo Trump apresentou um plano de paz de 28 pontos que refletia em grande parte a extensa lista de exigências da Rússia, incluindo demandas para que a Ucrânia cedesse território, reduzisse seu exército e fosse impedida de ingressar na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Autoridades ucranianas e europeias se opuseram veementemente a essa versão do plano de paz, e a delegação de Yermak conseguiu convencer Washington a revisá-la.

Mais negociações foram agendadas para os próximos dias.

O presidente russo, Vladimir Putin, disse na quinta-feira (29) que esperava a chegada de uma delegação americana a Moscou no início da próxima semana, enquanto Zelensky afirmou que a equipe ucraniana também se reuniria com os americanos.

Embora algumas autoridades americanas, incluindo o presidente Donald Trump, tenham elogiado o grande progresso alcançado esta semana, as chances de um avanço rápido parecem mínimas, especialmente depois que Putin indicou na quinta-feira que não está disposto a ceder em suas exigências.

Problemas de corrupção

A Ucrânia é vista há muito tempo como um dos países mais corruptos da Europa, um grande obstáculo às suas aspirações de ingressar na UE (União Europeia).

A UE deixou claro para Kiev que o país precisa implementar medidas anticorrupção rigorosas para se tornar membro, e o governo Biden instou o governo ucraniano a intensificar os esforços para erradicar a corrupção em 2023.

Combater a corrupção desenfreada no governo também foi a principal promessa de campanha de Zelensky antes das eleições de 2019.

Ex-comediante que interpretou o presidente da Ucrânia em um programa de TV de sucesso, Zelensky não tinha nenhuma experiência política antes de sua vitória, mas soube explorar o descontentamento dos eleitores com essa questão.

Durante a guerra, Zelensky demitiu diversos altos funcionários ucranianos por alegações de corrupção, e seu governo implementou medidas anticorrupção, incluindo a Estratégia Nacional Anticorrupção.

Organizações internacionais, incluindo a União Europeia, as Nações Unidas e o G7, grupo das principais nações industrializadas, já elogiaram o governo do atual presidente por seus esforços anticorrupção, inclusive pelo fato de que mesmo as principais autoridades do país não estão mais imunes à justiça.

Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky • @ZelenskyyUa NO X
Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky • @ZelenskyyUa NO X

Questionada sobre os últimos acontecimentos desta sexta-feira (28), Paula Pinho, porta-voz da Comissão Europeia, afirmou que as investigações “mostram que os órgãos anticorrupção na Ucrânia estão fazendo seu trabalho”.

Mas a decisão de Zelensky, no início deste ano, de aprovar rapidamente uma nova lei que concedia a supervisão das agências NABU e SAPO ao procurador-geral, uma figura indicada politicamente, foi vista como um grande equívoco.

Criticada por organizações anticorrupção nacionais e internacionais, bem como pela União Europeia, a medida desencadeou os primeiros protestos antigovernamentais na Ucrânia desde a invasão russa em larga escala, em fevereiro de 2022.

A indignação pública forçou Zelensky a reverter rapidamente sua posição e restaurar a independência das agências.

Mas esse episódio, somado às recentes acusações contra alguns dos aliados mais próximos do presidente, incluindo seu ex-sócio Timur Mindich, seu ex-vice-primeiro-ministro Oleksiy Chernyshov e agora Yermak, estão aumentando a pressão sobre o líder ucraniano em um momento em que ele enfrenta negociações difíceis com os Estados Unidos e a Rússia.

Fonte: CNN Brasil

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