Quem é o atacante de Costa do Marfim que emocionou com carta à irmã

O atacante Yan Diomande, da Costa do Marfim

Antes do início da Copa do Mundo 2026, o nome do atacante Yan Diomande, da Costa do Marfim, era um dos que mais despertavam curiosidade entre todos os atletas do torneio. Afinal, o jogador de apenas 19 anos vinha de temporada espetacular pelo RB Leipzig, com 13 gols e 9 assistências em 36 partidas. Sua ótima atuação na vitória sobre o Equador, na estreia dos “Elefantes” no Mundial, só aumentou o hype em cima do marfinense.

Na última quarta-feira (17), por sua vez, Diomande emocionou o mundo com uma carta aberta publicada no site Player’s Tribune. No texto, que foi direcionado à sua irmã, Roxane, falecida no ano passado após um trágico incidente, ele lembrou a infância muito humilde da família em Abidjã, antiga capital da Costa do Marfim, e as agruras que ambos passaram juntos.

Na mensagem, o marfinense ainda recorda os muitos “nãos” que levou em peneiras até conseguir seu primeiro contrato profissional. A alegria foi interrompida semanas depois, quando ele recebeu a notícia de que Roxane havia morrido com apenas 15 anos.

Em tom emocionante, Diomande agradece o incentivo que a irmã mais nova sempre deu desde que ambos eram crianças e prometeu que vai realizar tudo o que ela previu que aconteceria na vida do hoje atleta da seleção da Costa do Marfim.

“Eu vou realizar tudo o que você previu para mim. Eu juro. Mesmo antes de eu ganhar minha primeira chuteira, você dizia a todos: ‘O meu irmão é o melhor do mundo’. Eu vou provar que você estava certa, ou vou morrer tentando”, escreveu.

Veja abaixo alguns trechos da carta:

Você se lembra quando alguém me comprou uma camisa falsa do Manchester United e eu escrevi ‘Ronaldo 7’ nas costas com uma canetinha preta? Nós não sabíamos o que era ser rico ou ser pobre. Só sabíamos o que era a felicidade.

Você se lembra quando 25 pessoas dormiam em casa em Abidjã? A mamãe queria assistir às novelas dela. Todos queriam ver filmes. Você se lembra que eu fingia que estava dormindo e ia para a sala ver TV à meia-noite? Eu colocava o volume bem baixinho, só duas barrinhas. Eu gostava de ver jogos de futebol e sonhar.

Você se lembra quando eu fui jogar longe de casa? Eu tinha apenas 9 anos. Foi no Inter Foot Sud Comoé, perto da fronteira com Gana. Um garotinho sozinho no mundo. Não sei se já te contei, mas eu e os outros meninos costumávamos ir à vila e roubar batatas, porque a gente estava morrendo de fome.

Era tipo “assalto ao banco”: dois distraíam o dono da loja, e os outros 18 corriam carregando uma ou duas batatas. Elas nem eram tão bonitas, mas o sabor era delicioso (risos). Ainda é minha comida favorita até hoje: batatas cozidas com um pouco de azeite. Elas me lembram desses tempos.

Você se lembra quando eu ganhei meu primeiro parde chuteiras e dormia com a cabeça nelas? Quando era mais novo, eu jogava com aqueles chinelos brancos de plástico. Até hoje, quando volto para casa, jogo com elas. É nossa tradição.

Lembra quando a gente ficava sentado e sonhando em mudar para a França? A gente falava que iria ao shopping, compraria nosso próprio apartamento e que eu seria um jogador muito rico, cheio de carros e com uma mansão, e que você não teria nunca mais que se preocupar com nada. Você era a única que acreditava que eu poderia ser o próximo Cristiano, enquanto todos os outros riam.

Lembra quando eu fui fazer peneiras no Bournemouth? No Chelsea, no Rangers, no Olympiacos, no Crystal Palace? O Eze e o Olise até vieram conversar comigo um dia depois do treino e me falaram: ‘Ei, garoto, você é realmente muito bom!’.

Mas, mesmo assim, ninguém me contratou…

Nem mesmo os times B da MLS me queria. Eu não entendia o motivo, ninguém me explicava. Os adultos que cuidavam de tudo. Eles ficavam me levando ao redor da Europa, mas todos só me diziam ‘não’.

Meu visto acabou. Meu sonho terminou. Eles me mandaram de volta para a África, e nós choramos juntos.

Mas você foi a única que nunca parou de acreditar em mim. Semanas depois, eu assinei com o Leganés e nós choramos lágrimas diferentes.

Nessa época, eu ainda tinha emoções. Agora, eu não sinto mais nada. É como se eu não fosse mais humano. Desde que você morreu, eu sou apenas um vazio.

Eu não acho que chorei uma única lágrima no dia que me disseram que você tinha partido. Eu apenas fiquei em choque.

Foi alguams semanas depois da minha estreia pelo Leganés. Quem faz sua estreia profissional aos 18 anos contra o Real Madrid? Foi uma loucura! Foi um sonho!

Depois, virou um pesadelo… Alguém ficava me ligando da Costa do Marfim. Eu estava irritado, não entendia por que ficavam me ligando.

Atendi, e a pessoa nem tentou amenizar a notícia. Você sabe como são as coisas lá em casa. Sem emoções. Apenas…

“Sua irmã se foi”

“O que?”

“Ela morreu”

“Do que você está falando?”

“Alguém colocou alguams coisa na bebida dela em uma festa e ela não acordou mais. Ela se foi”

Você tinha 15 anos.

15!

Eu escrevi essa carta porque não consigo falar sobre isso. Eu escrevi porque quero ter certeza que sua memória continuará vida. Eu vou me certificar que todos saibam seu nome. O mundo inteiro.

Tudo o que eu faço em campo é por você.

Tantas coisas aconteceram desde que eu te vi pela última vez. Você nem iria acreditar! Nem sei se eu acredito.

Sabe o que é o mais maluco? Depois da minha estreia contra o Madrid, eu troquei camisas com o Mbappé. Lembra que a gente ficava assistindo aos jogos dele na TV e você falava: ‘Mbappé? Sim, ele é bom… Mas meu irmão é melhor!”.

Tudo o que você sempre dizia virou verdade.

Estamos indo para a Copa do Mundo. De verdade. Seu irmão vai jogar pela Costa do Marfim, como o Drogba, como o Yaya Touré, como o Gervinho.

Aqui, as coisas nem parecem um jogo. Parece um palco. É a minha chance de mostrar ao mundo o que você via em mim. Toda vez que eu fizer um gol, vou me certificar que todos saubam seu nome. Vou me certificar que ninguém vai te esquecer.

Você sempre me disse que eu poderia ser melhor que o Cristiano. Se eu encontrá-lo na Copa, vou dar seu “oi” para ele.

Eu vou realizar tudo o que você previu para mim. Eu juro. Mesmo antes de eu ganhar minha primeira chuteira, você dizia a todos: “O meu irmão é o melhor do mundo”.

Eu vou provar que você estava certa, ou vou morrer tentando.

Seu irmão,

Yan.

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